
Afinal o que todos desejamos para nós? Ter Saúde, claro. E como lá chegar? Com práticas clínicas de Promoção da Saúde e de Prevenção da doença. E como se conseguem alcançar esses objectivos? Com uma medicina de proximidade através dos Cuidados Primários de Saúde, nos Centros e Extensões de Saúde e Unidades de Saúde Pública, com especialistas em medicina geral e familiar e em saúde pública, funcionando de modo integrado com todas as entidades públicas que podem e devem contribuir para o efeito.
Assim, consegue-se fazer o acompanhamento das pessoas e das suas famílias, ao nível local, com a medicina geral e familiar, e das comunidades com os especialistas e técnicos de saúde pública, detectando em ambas as situações as patologias prevalecentes, podendo actuar com celeridade de forma correctiva e/ou preventiva junto das famílias ou das comunidades, de forma articulada com as autarquias, segurança social e outras entidades relevantes para cada caso concrecto.
Desta forma se podem lançar campanhas de sensibilização sobre a nutrição, o exercício físico, mudanças de hábitos para diminuir a incidência de tal ou tal doença nos membros de uma dada família, ou comunidade; campanhas de rastreio, detectando patologias em fase precoce, em que o seu combate ainda é possível. Manter os parâmetros analíticos em níveis aceitáveis com alguns medicamentos diários de baixo preço. As medicina geral e familiar e a saúde pública, actuando integrada e conjugadamente, conseguem atempadamente prever e/ou detectar doenças, actuar sobre as suas causas diminuindo os casos emergentes, os custos, o sofrimento e todos os transtornos associados às doenças.
Consegue-se assim a Promoção da Saúde e a Prevenção da Doença. E foi com este modelo ou paradigma que Portugal passou de um piores indicadores de saúde do mundo para a décima segunda posição, diminuiu a taxa de mortalidade infantil, aumentou a esperança de vida, passámos a ter melhor qualidade de vida.
Inversamente, a Medicina Curativa, actua sobre a doença. Ou seja: a pessoa adoece, vai queixar-se a um médico de qualquer especialidade, este prescreve uma série de exames, análises para formar o seu diagnóstico, pois não conhece o historial clínico da sua família e tem mais dificuldade em diagnosticar; vencida esta primeira etapa, consulta o manual dos medicamentos, escolhe o que lhe parece adequado, e prescreve.
A probabilidade de contrair doenças é maior, pois as fases da promoção da saúde e da prevenção da doença ficam praticamente desactivadas com a dificuldade de funcionamento dos Centros de Saúde ou o seu encerramento, com a quase inexistência de saúde pública; aumenta a probabilidade de ocorrências de emergência, doenças súbitas, incapacidades ou mortes daí resultantes, aumento exponencial dos custos e envolvendo toda uma estrutura dispendiosa de emergência médica, encarecendo os tratamentos necessários para reduzir os riscos associados.
Então o queremos: medicina preventiva ou medicina curativa? Do ponto de vista do utente e dos profissionais honestos parece não haver dúvidas. Só que a medicina preventiva, promovendo a saúde, diminui o sofrimento para os utentes e os custos para o erário público e famílias, logo reduz os lucros, de quem vive da doença e sofrimento alheios, estraga a rentabilidade do negócio da doença.
Por isso se diz que a pirâmide dos especialistas na saúde está invertida: há mais especialistas nos hospitais do que nos centros de saúde, ou seja: mudaram paulatinamente o paradigma da medicina preventiva para a curativa. Servem-se os interesses do negócio da doença em detrimento do bem-estar e qualidade de vida das populações.
As ULS ao envolver os hospitais com os cuidados primários de saúde, oficializaram esta aposta na medicina curativa; opção acentuada com a municipalização e a privatização das unidades de saúde do SNS, deixando este de ser universal, em condições de igualdade de acesso no todo nacional, pulverizando-o nas diversas formas de praticar a medicina curativa, maximizando o lucro em detrimento da promoção da saúde e da prevenção da doença, pois estraga o negócio da doença!
E termino como iniciei: Afinal o que todos desejamos para nós? Ter Saúde!, será? Se assim for então o caminho não poderá ser este da privatização. Teremos de apostar em quem defende a Constituição da República Portuguesa, os interesses e direitos dos utentes e não dos donos do negócio da doença; devemos estar com os profissionais de saúde que desejam exercer no SNS, em exclusividade de serviço devidamente remunerado, com as suas carreiras dignificadas, as unidades apetrechadas com os equipamentos suficientes e necessários para praticarem as suas profissões ao nível mais elevado possível, para se sentirem realizados e os utentes atendidos com a qualidade devida.
Mas isto estraga o negócio dos milhares de milhões! Teremos muito que lutar para conseguirmos repor o SNS no paradigma e ao nível que os seus construtores iniciais, inspirados pelos valores de Abril, conseguiram alcançar.
Mãos à obra!
